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No passado podíamos brincar na rua,
jogar bola no campinho do bairro,andar de bicicleta, subir em
árvores, tomar banho em uma sanga ou um banhado perto de casa ou
mesmo ir a uma pracinha pública próxima de casa com tranqüilidade.
Na minha infância, pelo menos, no IAPI, essas atividades eram
constantes, mesmo morando em uma cidade grande. Atualmente, no
entanto, o acesso a estas fontes é restrito. Famílias urbanas, por
exemplo, são forçadas a ter uma área de recreação interna para as
crianças, por razões de segurança. Estilos de vida e atividades
recreacionais para crianças tiveram mudanças significativas. Vieram
os condomínios fechados, os clubes etc. As brincadeiras externas
foram, em muitos casos, substituídas por videogames e computadores.
Nas últimas décadas as conveniências modernas têm reduzido nossos
esforços e exercícios. Os filhos de famílias do meio rural, por
exemplo, costumavam levantar-se antes da escola para fazer suas
tarefas caseiras, que agora são cumpridas por máquinas. Há não muito
tempo, as crianças andavam até a escola com seus vizinhos ou
sozinhas, as minhas particularmente iam sozinhas. As crianças de
hoje, devido ao aumento da criminalidade ou à distância, são levadas
para a escola por ônibus escolares ou pelos pais. O
Aikido, ou mesmo qualquer exercício
regular, pode ajudar o praticante a alcançar um nível natural de
bem-estar físico maior do que os nossos estilos de vida promovem.
Certamente podemos classificar o Aikido
como um conjunto de poderosas ferramentas a serviço da
complementação de uma formação mais plena para a criança. O nosso
Aikido é baseado em 7 princípios
filosóficos de estratégia e 3 práticas filosóficas. Tais princípios
e práticas filosóficos são exercitados através da prática corporal
de 3 conjuntos de técnicas básicas.
Os 7 princípios filosóficos de estratégia são: A) Antecipação, saber
quem é o adversário e como é o terreno onde vai ser desenvolvido o
conflito – A melhor maneira de resolver um conflito é
encontrar uma solução antes que ele se manifeste. B) Não ser
atingido (autopreservação) – Quando não existe agredido, não
existe agressão. C) Não bloquear, não ir contra a energia do
atacante – Se não houver reagente, não haverá fogo. D)
Sempre procurar localizar-se em um ponto na retaguarda do atacante
ou, no mínimo, em um ponto neutro, de forma a ser a sombra de suas
costas. É impossível, para o atacante, atingir a sua sombra.
E) Manter o seu centramento, tanto físico como psicológico, buscando
sempre que possível ser o centro do movimento. O centro é o
poder. F) Neutralizá-lo com movimentos circulares
descendentes e imobilizá-lo, em decúbito ventral, sempre que
possível. O contato do ventre com a terra nos acalma e
tranqüiliza. G) Nunca deixar o adversário, mesmo na
finalização do movimento, em situação humilhante e de extrema dor,
seja física ou psicológica – Um gatinho indefeso, quando
encurralado, transforma-se em um leão.
As três práticas filosóficas são:
1- Disciplina; 2- Hierarquia (respeito aos mais velhos
ou mais antigos); 3- Giri (gratidão).
O Aikido moderno procura, na medida do
possível, manter os valores morais
e as estruturas organizacionais e hierárquicas do Japão antigo,
buscando valorizar o que de melhor este período tem a oferecer,
adequando tais práticas às nossas realidades.
Os 3 conjuntos de técnicas básicas são:
-
Ukemi, a arte de cair e levantar;
-
Tai Sabaki, a arte de caminhar e dos
movimentos circulares de esquiva;
-
Waza(s), técnicas de projeção,
torção de articulações e imobilizações.
CONCLUSÃO
Com o aprendizado de cair e levantar-se em segurança, o praticante
aprende que A QUEDA É UMA OPORTUNIDADE E NÃO UMA DERROTA. É uma
oportunidade de começar algo novo, seja através de um novo
movimento, quando no Aikido, ou algo
novo na vida, quando o praticante conseguir levar esta metáfora para
o seu cotidiano. Por meio dos movimentos circulares do
Aikido, a criança desenvolve
equilíbrio, centramento e noção de espaço. Através dos exercícios de
esquiva em geral, desenvolve o instinto de autopreservação.
Atualmente percebemos que este instinto se encontra um pouco
adormecido, pois as crianças são altamente tuteladas.
Conseqüentemente, ao atingir a idade adulta, com freqüência esses
indivíduos encontram-se despreparados.
Com a prática da não-resistência, as crianças aprendem a buscar uma
solução criativa, eliminando o conflito e passando a coordenar e
controlar melhor os seus movimentos. Dessa forma, elas descobrem e
ampliam suas capacidades e seus limites, tanto no aspecto físico
quanto psicológico. Além disso, os praticantes também aprendem a
respeitar o limite do outro, o seu colega de treino, neste caso. A
prática ainda transmite à criança uma noção mais definida de espaço
e de inserção, tanto no mundo físico como no mundo social.
O Aikido tem um programa próprio, que é
adaptado à idade dos praticantes. A base dos treinos é comum a todos
os grupos etários. Assim, os movimentos com risco de luxação ou que
constituem esforço demasiado para as articulações, ainda em
desenvolvimento nas crianças, são retirados do programa, mas, em
compensação, na turma infantil são acrescentados exercícios, jogos e
brincadeiras, específicos para crianças. Estes jogos de treinamento
não somente constroem músculos, mas também desenvolvem flexibilidade
e agilidade. Eles são também uma ótima brincadeira, quebrando a
rotina das atividades regulares da aula.
O mais importante a se considerar nas brincadeiras das crianças é a
segurança. Nenhum destes exercícios é difícil ou excessivo.
Individualmente, cada criança pode decidir parar a qualquer momento.
Os jogos e exercícios em si são selecionados com base principalmente
na segurança dos praticantes, mas as crianças podem facilmente
excedê-los, por não conhecerem seus próprios limites. Isto pode
colocar ele e seu companheiro de treino (Uke) em risco. Dai a
importância de que este treinamento seja sempre feito sob a
supervisão de um instrutor. A função dele é observar se há
hiperatividade ou comportamento hiperexcitado. Às vezes, retirar uma
criança que esteja demasiadamente excitada e fazê-la apenas observar
a aula por alguns minutos pode resolver o problema. Como muito do
aprendizado de uma arte como o Aikido
se realiza através de fazer ou não fazer algo, pedimos que os pais
entrem em contato com os responsáveis quando não compreenderem
alguma atitude de um instrutor ou do Sensei.
Muitos dos treinamentos individuais, como o canguru, o sapinho, o
caranguejo, o coelho, a cobra etc., podem ser feitos como
competições. Nas brincadeiras e nos jogos com competições procuramos
acentuar a idéia e o sentimento de grupo em detrimento da
individualidade, uma vez que o mundo adulto, como está conformado,
já apresenta para a criança uma forte carga de supervalorização da
individualidade. Desejamos com esta prática criar um MEME (ver
Richard Dawkins) positivo de valorização do espírito de equipe, do
trabalho em grupo e, conseqüentemente, o respeito aos outros seres.
Em alguns momentos o tratamento durante o treinamento pode parecer
injusto ou duro para com o seu filho, mas esteja certo de que isto
obedece a um propósito, queremos prepará-lo, como praticante de
Aikido, para a vida. As exigências do
mundo real são muitas, quanto mais as crianças estiverem preparadas
em termos de atenção, superação das dificuldades, empatia (sentir as
necessidades do próximo ou do grupo), respeito à hierarquia e
espírito de cooperatividade (desenvolvendo a noção de que sozinhos
não chegamos a nada, nem à nossa própria felicidade), mais
preparadas elas estarão para viver de forma plena.
No entanto, em momento algum esquecemos que não é possível exigir de
uma criança que ela se concentre por uma hora apenas na prática do
Aikido. Portanto, apesar da importância
de incluirmos alguns dos ensinamentos e algumas das práticas de
nosso caminho nestas aulas, é preciso “quebrar o ritmo” com jogos e
brincadeiras. Assim, com turmas de crianças seguimos uma dinâmica
própria que pode ser traduzida pela seguinte frase: um movimento de
Aikido, uma brincadeira; um movimento
de Aikido, outra brincadeira. E é
brincando que se apreende.
R. Vargas Fº
26/02/2007
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